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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O polêmico chá "Santo Daime" é consumido há 300 anos

Alvo de polêmica desde o assassinato do cartunista Glauco Villas Boas e do filho dele, Raoni, há alguns meses, o chá de ayahuasca, conhecido popularmente como “Santo Daime”, é consumido por comunidades indígenas da Amazônia há pelo menos 300 anos.



Relatos históricos dão conta de mais de 70 grupos que usavam a ayahuasca – e suas mais de 40 diferentes denominações – nos países ao longo da Amazônia (Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Venezuela e Bolívia). O uso nas tribos estava relacionado ao xamanismo, às práticas de cura e aos mitos de origem dos grupos, diz a antropóloga Beatriz Labate, autora de vários livros sobre a ayuahasca.
Há quem acredite que a substância já seria utilizada pela civilização inca (a palavra “ayahuasca” tem origem quéchua), "embora não haja evidências arqueológicas", diz Henrique Carneiro, do Departamento de História da USP.
Mas foi só nos anos 30, quando o seringueiro brasileiro neto de escravos Raimundo Irineu Serra (1892-1971), o mestre Irineu, fundou a doutrina do Santo Daime, que a bebida passou a ter seu uso incorporado à religião a qual teve o nome vinculado.
"A adesão de pessoas conhecidas na mídia, como Lucélia Santos, Ney Matogrosso e Maitê Proença acabou servindo com uma divulgação maior do Daime, despertando o interesse em vários lugares, inclusive em outros países. "

Adeptos do Santo Daime, Glauco e o filho foram mortos por um dos freqüentadores da igreja Céu de Maria, fundada pelo cartunista. Familiares e a defesa do acusado pelo crime apontam o chá, ministrado nos cultos, como um dos agravantes do estado psicológico dele.
Divisão
Foi mestre Irineu que adaptou o uso da bebida, antes utilizada de forma terapêutica pelos xamãs indígenas, aos cultos, que incorporam elementos do xamanismo caboclo, do catolicismo, do esoterismo e do espiritismo, diz o professor de antropologia da Universidade Federal da Bahia Edward MacRae, autor de “Guiado pela Lua - Xamanismo e Uso Ritual da Ayahuasca no Culto do Santo Daime” (ed. Brasiliense.
Mais tarde, o Santo Daime foi dar origem a duas novas igrejas. Após uma revelação, um dos discípulos do mestre Irineu, Daniel Pereira de Matos, fundou a Barquinha, igreja mais restrita ao Acre, que tem elementos africanos mais fortes. Em Rondônia, outro daimista, José Gabriel da Costa, fundou a União do Vegetal (UDV), que adota a grafia hoasca.
Da Amazônia para os centros urbanos


No final da década de 70, muitos jovens de classe média brasileira, a caminho das ruínas de Machu Picchu, conheceram o chá no Acre e se converteram à religião, que migrou da Amazônia para os grandes centro urbanos, como Rio, Brasília e Florianópolis.).
A adesão de pessoas conhecidas na mídia, como Lucélia Santos, Ney Matogrosso e Maitê Proença acabou servindo com uma divulgação maior do Daime, despertando o interesse em vários lugares, inclusive em outros países”, diz o historiador Henrique Carneiro.
Expansão



Mais conhecido nos centros urbanos brasileiros, não demorou até que o chá de ayahuasca chegasse a outros continentes. Durante a década de 80, segundo a antropóloga Beatriz Labate, o Santo Daime e a União do Vegetal abriram suas primeiras igrejas nos Estados Unidos e Europa.
“No inverno de 1993, um grupo de seis pessoas foi à comunidade de Céu de Mapiá [no Acre]. Eles encontraram [o fundador] Padrinho Alfredo e quando ele soube o que estava acontecendo na Holanda, batizou de Céu dos Ventos”, conta Irene Hadjidakis que, com o marido Marco, ajudou a fundar uma das duas igrejas do Santo Daime no país, em Haia, há 16 anos.
O consumo do chá em rituais, no entanto, começou dois anos antes, quando tomaram conhecimento da visita de um grupo da Igreja acreana à Espanha. “Desde esta época, se tornou possível participar de rituais do Santo Daime na Holanda de forma constante. O grupo cresceu muito rápido e, em poucos meses, estávamos conduzindo rituais com 200 participantes”, lembra. 
Nas grandes cidades, o chá do Santo Daime passou ainda por um terceiro ciclo 

de expansão, chegando a comunidades de espiritismo, umbanda e religiões orientais.
 “Uma vez que o Daime e a UDV chegam nos grandes centros urbanos, começam a combinar suas práticas com matrizes religiosas típicas das cidades, em diálogo com vertentes orientalistas, hinduístas, umbanda e terapias humanísticas como meditação, yoga, expressões artísticas diferentes”, explica Beatriz Labate, pesquisadora do Instituto de Psicologia Médica da Universidade de Heildelberg, na Alemanha.

 “Há um processo sincrético com certas tradições, como o 'umbandaime’ [resultado da fusão do Daime com a religião afro-brasileira], a abordagem mais hinduísta, neo-pagã, que dentro dos seus rituais passaram a incorporar o uso da ayahuasca”, diz o professor Edward MacRae.
Longe de representar o surgimento de novas religiões, segundo o antropólogo, o que se observa na introdução do chá nestas religiões é a convivência de práticas do Santo Daime, como concentrações, entoação de hinos e mirações [visões após ingestão do chá]. “O Daime é uma religião bastante sincrética, não só para a crença a santos católicos, mas também para outras entidades indígenas e africanas”, diz. 
Legislação
Em janeiro deste ano, o  governo brasileiro oficilaizou as regras para uso do chá de ayahuasca. Segundo os especialistas, a resolução, no entanto, é resultado de uma discussão iniciada há quase 20 anos. O Brasil nunca proibiu a ingestão do chá em cerimônias religiosas, mas faltavam orientações para evitar o uso indevido.
O país foi um pioneiro na regulamentação do uso do chá, diz Beatriz Labate. Segundo a antropóloga, a legislação brasileira serviu de exemplo para que tribunais de muitos países legalizassem o consumo do ayahuasca.
Preconceito



Para a pesquisadora, no entanto, a "maneira como alguns setores da mídia tem discutido o tema" após o assassinato do cartunista Glauco é produto de preconceito. “Existe um forte dispositivo antidrogas, uma tendência a sempre se lidar de maneira preconceituosa com o tema. No caso da ayahuasca, se faz julgamentos mais severos do que se houvesse um assassinato em outra igreja qualquer.”
O professor Edward MacRae concorda. “Usar essa substância como sacramento causou espanto por muito tempo na sociedade, que não estava acostumada com isso. Houve uma série de interpelações ao governo para saber se podia ou não”, afirma.
Labate destaca que o uso da bebida em rituais religiosos é sempre mediado por pessoas experientes, que a servem nos rituais seguindo certos preceitos. “Essas igrejas têm forte conhecimento acumulado. A quantidade da dose ministrada varia de acordo com o peso da pessoa, da idade, do sexo, de quanto tempo participa do ritual. Para as religiões, é uma substância extremamente sagrada.”


fonte: http://cienciaemtudo.spaceblog.com.br